Com 007 Só Se Vive Duas Vezes: Uma derrapagem no Japão
Quinto filme da franquia não teve êxito dos anteriores.
Haikai, um poema curto japonês, inaugura o prefácio do livro de 1962 escrito por Ian Fleming após ter sofrido um ataque cardíaco grave visitando o Japão. Durante a sua recuperação, ele escreveu “You Only Live Twice”. O poema dizia:
“Só vives duas vezes: Quando nasces E quando tens a morte à tua porta.”
- Ian Fleming -
De fato os produtores Broccoli e Saltzman resolveram misturar a tensão da Guerra Fria da época com os costumes nipônicos. O livro foi lançado em 1964 e o filme “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes” é de 1967. As diferenças são grandes: o primeiro fez sucesso; já o segundo gerou a primeira derrapada na franquia do cinema e vou contar um pouquinho a respeito e ressaltar o que há de bom e curioso na quinta aventura do maior agente do cinema que “só viverá duas vezes” nesta aventura. Será?
A mudança de roteirista foi um dos pontos da derrapagem. Richard Malbaum escreveu os quatro filmes anteriores que foram grande sucesso, principalmente “Thunderball” (1965). Mas para a quinta produção Richard Malbaum não pôde assumir e Roald Dahl entrou em seu lugar. Infelizmente, ele não conseguiu o mesmo êxito do livro, gerando uma confusão sem tamanha no roteiro.
Os produtores foram ao Japão e passaram sete meses na difícil escolha das locações, principalmente na base do vilão, que no livro (spoiler) é um castelo, mas na costa japonesa não havia tais edificações e, por fim, tiveram a brilhante ideia da base do vilão ser dentro de um vulcão (sic).
A escolha das bond gils japonesas também foi complicada. Ambas atrizes Akiko Wakabayashi e Mie Hama tiveram que estudar o inglês e ter fluência para não serem cortadas do papel. Um dublê teve o pé decepado em meio a uma sequência do filme e durante a produção veio a desgraça maior: Sean Connery afirmou que não seria mais James Bond. Ator mais bem pago até o momento, afirmou que não queria ficar estigmatizado ao papel e quem é fã sabe muito bem que ele não abandonou o agente; retornando no filme de 1971 e na refilmagem não oficial de 1983.
E a trama? Em meio à Guerra Fria, o misterioso sumiço de espaçonaves dos EUA e União Soviética gera um clima de conflito entre as duas nações e a Inglaterra resolve investigar através do MI-6, enviando 007 para o Japão. Antes, porém, visado pela organização S.P.E.CT.R.E., suspeita do roubo das aeronaves, resolve se fingir de morto, para não levantar dúvidas e continuar a investigação. Até aí a trama é bem amarrada, mas os problemas são as sequências no Japão, onde, numa tacada só são jogadas cenas mostrando os costumes japoneses como lutas de sumôs, ninjas atrapalhados e o absurdo de 007 se torna um legitimo japonês em uma cena dispensável em que usa peruca e próteses para parecer japa e ainda se casar nos costumes nipônicos!! Oras, se o MI-6 havia forjado a própria morte de 007, haveria necessidade de tudo isso? Essas sequências são cansativas e não contribuem ao desenvolvimento do roteiro. Chega a parecer até outro filme dentro de um filme de 007. O livro é bem melhor. Recomendo!
Vamos às coisas legais? Mano a mano, face to face, James Bond versus Ernst Stavro Blofeld. Essa é uma das sequências mais famosas e conhecidas do cinema. Pela primeira vez o líder máximo da organização S.P.E.C.T.R.E. aparece em carne e osso, e foi acertada a escolha do saudoso ator Donald Pleasence. O eterno Dr. Loomis de “Halloween” (1978), careca , e com a cicatriz no rosto, segurando seu angorá persa branco e com sua voz aveludada, em poucas cenas e diálogos, “salva” o filme de um desastre maior…
A canção-tema “You Only Live Twice”, teve Nancy Sinatra como intérprete e sua melodia e letras são das mais lindas. John Barry também acertou na trilha incidental, misturando a cultura japonesa com James Bond theme. Tivemos na direção Lewis Gilbet, conhecido pelos seus grandiosos cenários: a base do vilão dentro de um vulcão impressionou na época, com orçamento em US$ 1 milhão. E Broccoli não pensou duas vezes: pediu que Ken Adams, o designer de produção mais veterano da série, ainda em atuação, desenvolvesse a charmosa “ little Nelly”, um gericóptero, um dos helicópteros menores que existem no Mundo senão o menor usado para um filme na época.
O filme não foi bem como os anteriores, mas não foi a pior bilheteria da série. Ainda sobraria uma segunda ou terceira meia vida para James Bond! Sayonara!
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